domingo, 26 de setembro de 2010

-         -  Não!

-          - Como?

-         -  Vá se foder Olivo!

-        - Você está sensível…

A cama esfriou, o ventilador ligado secava os pêlos gozados no meu pesadelo, a nossa intimidade exagerada me fez adormecer sob o seu peito jovem. Olivo, você sabe o que você é. O seu corpo sujo me cheira bem.  A sua juba me coça a cara a noite toda, nossos fios escuros se amontoam no canto do quarto junto à essência de meus berros e do seu sussurro altamente sexual. O seu rugido sem humor é de um leão que quando mama vira bezerro dócil, que quando me vira de ponta cabeça é porque tá cavalo, que quando ouve meus gemidos se acelera e late igual cachorro. Eu te mijo pra marcar o meu território.  Você goza disso, eu gozo do seu caráter zoológico.

- Porra, vai mais pra lá, cacete!

- Estúpida!

- É inevitável...

- O quê, Getuliana?

- Não ser estúpida

- É, mas comigo não é assim não

Depois que Olivo se reafirmou ela já poderia dormir. De qualquer forma aqueles gêmeos cuspiam diferenças grotescas quando se tratava de sono. Era sempre difícil para Getuliana dormir do jeito dele, envolvida pela coberta calorosa e pelo vento denso vindo da janela entreaberta na madrugada abafada. A provocação de um calor animalesco e o cafuné incômodo de Olivo em seu corpo comum de menina lembrava o de seu pai, talvez por ser um carinho ríspido, ambíguo e extremo. Num suspiro dela, num gesto prosaico dele, olhos descerravam como gatos preguiçosos, dedos se confundiam em partes, o ritmo entorpecido de rugidos primários deixava a música cantar solitária, e consciências perturbadas atingiam uma espécie de desocupação parcial ou finalmente o sono.
A pele meiga de Olivo acordava os ânimos de Getuliana, que esticava o corpo inchado do sonho denso e insípido.

- hmm...que cheiro bom

- é o seu meu bem

- eu te amo, você me ama?

- muito.

- muito quanto?

- uma vida.

- uma só?

- uma vida inteira.

Depois de receber sua confirmação diária e irritante, Getuliana sossegava e elevava os ânimos novamente com Olivo. Já não era de manhã, e os Domingos sempre pareceram anêmicos e pouco contemplados por ambos. A fragilidade que este dia semanalmente corriqueiro causava nela era mais triste, porém saudável do que nele, que se enchia de puro abatimento e desesperança. Dois seres exageradamente sensíveis e perplexos começaram a chorar como dois bebês gêmeos esfaimados e abandonados pela própria penumbra. A solidão e o isolamento faziam estas duas criaturas bailarem uma noite inteira com o próprio som, se admirando e se embriagando de cigarros e garrafas estupendas de vinhos avelhantados.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

os velhos novos de sempre

- comecei por começar, mas continuei por prazer

nós dois mais uma vez com nossos diálogos estranhos e impulsivos, embora inocentes. você me deu aquele beijo de costume, três mordidinhas leves nos meus dois lábios e três chacoalhadas com seus dentes mordiscando só as pontas dos meus beiços. aí você larga, bate o sono, faço cafuné nos seus vários fios compridos e escuros que no apagar da luz só vejo o formato do seu rosto branco e o resto é breu, debruçado no meu peito nós adormecemos. desejaria a nossa morte nestes momentos assim. estaríamos grudados como “irmãos de aquário” (como você diz) e simplesmente não acordaríamos amanhã. a preguiça dos outros e de tudo, enfrentando os cheiros, gostos, sons e texturas das próximas vinte e quatro horas nos dá mais ânsia de vômito e menos de viver. sei que você também falaria deste assunto com deleite, assim como eu, já que não passamos de crianças velhas em busca de sossego, embora tratadas como jovens adultos ou amadurecidos adolescentes.

sexta-feira, 26 de março de 2010

sex quod vis quorum

- Hoje é o dia do quorum do sexo e da violência! – alguém gritou.

A pior versão de olhos azuis peidou duas vezes à vontade ao meu lado. Almoço tardio. Sem fome. Rua. Pessoas. Eu posso roubar. Dói quando mijo, dói quando vejo. Negar sempre é inteligente. Quando crescer vou ter uma filha tetraplégica e disléxica, assim ela não vai ver o mundo em formato de boceta. Intransitivo direto do pretérito mais-que-perfeito. Perfeito idiota! Deixe os filhotes de vira-latas lamberem suas bolas e depois encoxe seus amigos na fila. Sente-se confortavelmente e observe as milhares de fotos que você tira deste seu rosto assustado e sozinho. Raspe a cabeça e perca suas coisas, sua alma. Só consegui ser uma grande quelóide, porém não me esforcei..faz uma semana que não durmo na cama. Ontem fez um mês que perdi minha vez e um ano que estou neste plano: mais de uma vida sem vontade de falar.

- Olá.
- Boa tarde, rapaz. Um café com conhaque e três torrões de açúcar?
- É.
- Você não enjoa de tomar a mesma coisa todos os dias?
- Só quando não posso comer o que quero.


quinta-feira, 25 de março de 2010

de tão doce não fica amargo?

a estação de 90. da arte contemporânea, do século XX, de Kurt Cobain, dos mamonas assassinas, das mulheres franzinas, da moda minimalista. enfim, o ano de todo mundo, de qualquer coisa, de uma mistura sem combinação, de uma descombinação misturada. é por isso que eu nasci.

- um café pequeno, por favor.

- mais alguma coisa?

- ah sim, me vê uma dose de ânimo misturada com sossego de 100 anos e duas passagens pra Itália.

- hãn?

- ONDE TEM AÇÚCAR?

- na mesa atrás de você, moça

três saquinhos de açúcar. metade do café jogado fora e preenchido com leite. essa porra está “a La dam”. doce pra formiga. merda, me fodi, vou tomar...paguei essa porra né.

indigesto, mas é

abro a fedida geladeira e dou de cara com o leite. merda! tomaram o resto do outro e não abriram esse aqui ainda. vou fumar e esquecer dessa joça.

quer saber? já era.

tenho que sair logo, os coalas podem chegar e não to afim de papo. cadê o obaminha? como diria jone “é o fim da picada”. saco! quando nasci o doutor socou o bisturi no meu rabo e saiu rasgando tudo! não é possível que o cartão do metrô me deixou sem avisar. quase sem nenhum tostão como é que vou pra puta que pariu? com o rabo estourado, sem dinheiro e sem humor não sirvo nem pra meretriz ou palhaço oferecendo bala no semáforo de qualquer rua.

- oi

- e aí?

- nada. e aí?

- é

- han?

- oi?

- oi

- e aí?

- nada. e aí?

- é

- han?

- oi?

- oi

...

por horas os meus anos passaram assim. comparado a um diálogo fúnebre, cheio de vazio, redundante, passivo-ativo e banalizado por mim mesma. dando voltas e voltas e motivada por motivos que não fazem sentido pra mim. para os que esperam de mim, ah pra esses sim essas voltas e motivos tem qualquer significado. eu só espero que esperem menos, porque o talento nasceu enfiado no cu de outro e o meu é só o bisturi do doutor, entende?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Alvejante

Quando eu era uma mulher meus ossos não doeram enquanto eu crescia. Descobri muito cedo os poderes da boceta, e em pouco tempo eles não me foram mais úteis. Pra ser mais preciso, a partir do momento em que descobri que não possuía ambição alguma.

Descolori meus cabelos longos e passei a usar um batom velho de vermelho chocante que encontrei no fundo da gaveta do banheiro. Costumava perambular por vários lugares sem propósito e as pessoas apontavam disfarçadamente pra mim. Eu era ridícula: finalmente a recíproca foi a mesma. Enquanto eu era uma mulher, um conhecido me perguntou: você gostaria de ser homem?

Jamais responderia tal pergunta. Existe a resposta previsível do senso comum, onde cada sexo gostaria de ser o oposto ocasionalmente, onde cada um obtém qualquer sorte de ‘vantagem’ em sociedade dependendo de qual deformação sustenta entre as pernas. Mas isto é tão superficial quanto perguntar se alguém gostaria de ser judeu ou nazista na Alemanha durante a segunda guerra mundial. Carne ou frango. Maconha ou pó. Mesmo que eu injetasse testosterona desde o meu nascimento e implantasse um caralho sintético, continuaria não podendo responder àquela pergunta. É impossível sentir vontade de ser qualquer coisa além de nós mesmos. Querer e vontade são distintos. Querer é claramente a intersecção da vantagem sobre a desvantagem. Vantagem e desvantagem são um bando de valores e juízos criados por nos mesmos a partir de associações intuitivas (espaço e tempo) e sensitivas (calor, frio, dor...) do que conhecemos no passado atribuídas a tudo o que nos cerca. Algo que só existe na forma abstrata, portanto passível de escolha e coerção. Essencialmente, não é possível haver vantagens em participar de qualquer um dos gêneros, a não ser que você as INVENTE. Talvez esta seja a vontade.

quinta-feira, 11 de março de 2010

a estação da minha vida

olhava para o chão. para os pés. os sapatos. a sujeira no carpete. o chiclete arrastado e pisoteado e empoeirado, sem cor. a boa iluminação me refletindo no vidro e de repente quem sou eu? hen, quem sou eu?

eu incomodada e tanta coisa acomodada. pouco espaço, um montado em cima do outro como cães e cadelas. vários joelhos vestindo saias e barrigas gordas limitando cada mínimo espaço de mim.

que monótono. pelo menos estou com o rabo na cadeira e não em pé. é, mas não estou tão bem assim com o meu rabo onde vários outros rabos mal lavados já estiveram. estou pior do que em pé então. merda, vou levantar.

não, vou ficar. vai demorar pra chegar e qualquer segundo aqui seria uma volta completa no relógio do tédio. isso equivaleria a alguns dias no relógio da ânsia e um calendário inteiro no da minha vida.

"tunti tunti tunti tunti" mas que porra é essa meu deus do céu isso é torturante. vou olhar porque estou incomodada e quem sabe assim esse som some. tinha que ser um filho da puta, metido a estiloso. esses jovens do caralho me tiram do sério!

que joelho feio. caído, mole, gordo e branco. eca, se eu tivesse pinto ele encolhia.
o meu clitóris não consegue nem pensar recebendo uma informação dessas.
relembrando: anão dentro da calça.

é mesmo, porque esses gordos malditos ficam parecendo que tem um anão dentro da calça?
está chegando, deixa eu ver qual será a estratégia, a "missão impossível", "a luz no fim do túnel" pra eu conseguir atravessar cães e cadelas montados um em cima do outro sem me encostar nesse pau de sebo e muito menos nesses animais de estimação inconfundíveis e remelentos. hm, vou dando com a bolsa no estômago desses gordos, pisoteando os pés dos joelhos simpáticos e fitando olhos escrotos que notaram a minha sutil e sem graça presença. isso me incomoda, ai como incomoda.
ah! desgraça.

hm, deixei você no bolso obaminha assim posso te usar sem o estresse de te precisar e nao te encontrar.
como um gordo passa nessas catracas apertadas do caralho? mais que inferno essas porras de metrôs. nunca precisei passar cartão pra sair dessa geringonça do cacete.
ai quanto palavrão, ai que delícia.

A gorda na esteira

No dia em que parei de respirar uma sonata ainda soava das terríveis caixas de som de algum computador barato. Os que estavam em volta constataram e continuariam pensando por muito tempo que eu havia ido a algum lugar. Que linda e irritante inocência a que se adquire na maturidade. É claro que não tinha ido a lugar algum. Estava ali, bem à frente deles. Aliás, estava bem esclarecido que o futuro nunca mais poderia me proporcionar absolutamente nada. Pois, finalmente, eu já o era.

Ah, o nada! Por quanto tempo te procurei ser depois que me tiraram de você. Que abandono mais insano e inescrupuloso! Quão tolo e inexperiente poderia ter sido para me perder no desejo da vida eterna? No entanto, continuo sendo o nada após ter parado de bombear sangue aos meus órgãos, como uma formiga que reconstrói seu formigueiro diariamente. O que, é bem verdade, torna este texto absurdo, porém somente possível através da mente cansada de um jovem ancião perturbado por sua inteligência; implícito o suficiente para se dar ao trabalho de escrever recursivamente, apostando sua segurança e alto estima em algo de tão pouco valor.

Meu piano não será mais tocado. Meus livros não mais serão abertos. Meu cachimbo não soltará mais fumaça. Não, não e não! Nem mesmo agora que sequer meu esperma existe, minhas memórias permanecem uma negação. A existência só foi plenamente quando pude negar. Como poderia querer algo que não criei? A vontade mais honesta, menos estóica e completa a partir de qualquer ponto de vista é o não-querer. Tomar conhecimento do que não se quer é o primeiro passo para a arte.

Dizem que morri. Porém, a morte só acontece para os outros. Morri para todos os que não são eu. A morte jamais poderia ocorrer para mim, já que, mesmo que me alertassem de sua iminência, logo depois não tive nem como obter qualquer resquício de qualquer memória de minha vida. Se você percebe nisto um disparate, tente se lembrar de como se sentia antes de ter nascido. O nada tem a mesma essência.

Não somo imortais. Somente incapazes de morrer para nós mesmos. A morte é uma experiência impessoal, ou seja, exige um quorum de duas pessoas para acontecer. Tão indiferente quanto uma gorda fazendo esteira.