- - Não!
- - Como?
- - Vá se foder Olivo!
- - Você está sensível…
A cama esfriou, o ventilador ligado secava os pêlos gozados no meu pesadelo, a nossa intimidade exagerada me fez adormecer sob o seu peito jovem. Olivo, você sabe o que você é. O seu corpo sujo me cheira bem. A sua juba me coça a cara a noite toda, nossos fios escuros se amontoam no canto do quarto junto à essência de meus berros e do seu sussurro altamente sexual. O seu rugido sem humor é de um leão que quando mama vira bezerro dócil, que quando me vira de ponta cabeça é porque tá cavalo, que quando ouve meus gemidos se acelera e late igual cachorro. Eu te mijo pra marcar o meu território. Você goza disso, eu gozo do seu caráter zoológico.
- Porra, vai mais pra lá, cacete!
- Estúpida!
- É inevitável...
- O quê, Getuliana?
- Não ser estúpida
- É, mas comigo não é assim não
Depois que Olivo se reafirmou ela já poderia dormir. De qualquer forma aqueles gêmeos cuspiam diferenças grotescas quando se tratava de sono. Era sempre difícil para Getuliana dormir do jeito dele, envolvida pela coberta calorosa e pelo vento denso vindo da janela entreaberta na madrugada abafada. A provocação de um calor animalesco e o cafuné incômodo de Olivo em seu corpo comum de menina lembrava o de seu pai, talvez por ser um carinho ríspido, ambíguo e extremo. Num suspiro dela, num gesto prosaico dele, olhos descerravam como gatos preguiçosos, dedos se confundiam em partes, o ritmo entorpecido de rugidos primários deixava a música cantar solitária, e consciências perturbadas atingiam uma espécie de desocupação parcial ou finalmente o sono.
A pele meiga de Olivo acordava os ânimos de Getuliana, que esticava o corpo inchado do sonho denso e insípido.
- hmm...que cheiro bom
- é o seu meu bem
- eu te amo, você me ama?
- muito.
- muito quanto?
- uma vida.
- uma só?
- uma vida inteira.
Depois de receber sua confirmação diária e irritante, Getuliana sossegava e elevava os ânimos novamente com Olivo. Já não era de manhã, e os Domingos sempre pareceram anêmicos e pouco contemplados por ambos. A fragilidade que este dia semanalmente corriqueiro causava nela era mais triste, porém saudável do que nele, que se enchia de puro abatimento e desesperança. Dois seres exageradamente sensíveis e perplexos começaram a chorar como dois bebês gêmeos esfaimados e abandonados pela própria penumbra. A solidão e o isolamento faziam estas duas criaturas bailarem uma noite inteira com o próprio som, se admirando e se embriagando de cigarros e garrafas estupendas de vinhos avelhantados.
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