quinta-feira, 11 de março de 2010

A gorda na esteira

No dia em que parei de respirar uma sonata ainda soava das terríveis caixas de som de algum computador barato. Os que estavam em volta constataram e continuariam pensando por muito tempo que eu havia ido a algum lugar. Que linda e irritante inocência a que se adquire na maturidade. É claro que não tinha ido a lugar algum. Estava ali, bem à frente deles. Aliás, estava bem esclarecido que o futuro nunca mais poderia me proporcionar absolutamente nada. Pois, finalmente, eu já o era.

Ah, o nada! Por quanto tempo te procurei ser depois que me tiraram de você. Que abandono mais insano e inescrupuloso! Quão tolo e inexperiente poderia ter sido para me perder no desejo da vida eterna? No entanto, continuo sendo o nada após ter parado de bombear sangue aos meus órgãos, como uma formiga que reconstrói seu formigueiro diariamente. O que, é bem verdade, torna este texto absurdo, porém somente possível através da mente cansada de um jovem ancião perturbado por sua inteligência; implícito o suficiente para se dar ao trabalho de escrever recursivamente, apostando sua segurança e alto estima em algo de tão pouco valor.

Meu piano não será mais tocado. Meus livros não mais serão abertos. Meu cachimbo não soltará mais fumaça. Não, não e não! Nem mesmo agora que sequer meu esperma existe, minhas memórias permanecem uma negação. A existência só foi plenamente quando pude negar. Como poderia querer algo que não criei? A vontade mais honesta, menos estóica e completa a partir de qualquer ponto de vista é o não-querer. Tomar conhecimento do que não se quer é o primeiro passo para a arte.

Dizem que morri. Porém, a morte só acontece para os outros. Morri para todos os que não são eu. A morte jamais poderia ocorrer para mim, já que, mesmo que me alertassem de sua iminência, logo depois não tive nem como obter qualquer resquício de qualquer memória de minha vida. Se você percebe nisto um disparate, tente se lembrar de como se sentia antes de ter nascido. O nada tem a mesma essência.

Não somo imortais. Somente incapazes de morrer para nós mesmos. A morte é uma experiência impessoal, ou seja, exige um quorum de duas pessoas para acontecer. Tão indiferente quanto uma gorda fazendo esteira.

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