Quando eu era uma mulher meus ossos não doeram enquanto eu crescia. Descobri muito cedo os poderes da boceta, e em pouco tempo eles não me foram mais úteis. Pra ser mais preciso, a partir do momento em que descobri que não possuía ambição alguma.
Descolori meus cabelos longos e passei a usar um batom velho de vermelho chocante que encontrei no fundo da gaveta do banheiro. Costumava perambular por vários lugares sem propósito e as pessoas apontavam disfarçadamente pra mim. Eu era ridícula: finalmente a recíproca foi a mesma. Enquanto eu era uma mulher, um conhecido me perguntou: você gostaria de ser homem?
Jamais responderia tal pergunta. Existe a resposta previsível do senso comum, onde cada sexo gostaria de ser o oposto ocasionalmente, onde cada um obtém qualquer sorte de ‘vantagem’ em sociedade dependendo de qual deformação sustenta entre as pernas. Mas isto é tão superficial quanto perguntar se alguém gostaria de ser judeu ou nazista na Alemanha durante a segunda guerra mundial. Carne ou frango. Maconha ou pó. Mesmo que eu injetasse testosterona desde o meu nascimento e implantasse um caralho sintético, continuaria não podendo responder àquela pergunta. É impossível sentir vontade de ser qualquer coisa além de nós mesmos. Querer e vontade são distintos. Querer é claramente a intersecção da vantagem sobre a desvantagem. Vantagem e desvantagem são um bando de valores e juízos criados por nos mesmos a partir de associações intuitivas (espaço e tempo) e sensitivas (calor, frio, dor...) do que conhecemos no passado atribuídas a tudo o que nos cerca. Algo que só existe na forma abstrata, portanto passível de escolha e coerção. Essencialmente, não é possível haver vantagens em participar de qualquer um dos gêneros, a não ser que você as INVENTE. Talvez esta seja a vontade.
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